Candidaturas LGBT+ estão entre os principais alvos da violência política no Brasil.
As lideranças LGBT+ no Brasil são alvos preferenciais da violência política. Ainda que representem apenas 2,1% das quase 10 mil mulheres candidatas nas eleições de 2022 (TSE), candidatas LGBT+ concentram quase 30% dos casos oficialmente registrados de violência política de gênero pelo Ministério Público Federal. Além de mais frequentes, essas violências são mais graves: 48% dos casos sofridos por candidatas LGBT+ são classificados como crimes penais, como ameaças, difamação e violência física.
As plataformas digitais figuram como os principais catalisadores desses ataques, onde o anonimato facilita a impunidade e dificulta a responsabilização dos agressores. Soma-se a isso uma profunda subnotificação, convivência cotidiana com a violência e a dificuldade em recorrer aos canais de denúncia. Esse abismo entre a violência e a responsabilização dos agressores expõe uma lacuna institucional grave: a ausência de políticas públicas capazes de acolher e responder adequadamente às demandas específicas da população LGBT+ na política. Diante disso, torna-se necessário desenvolver soluções que articulem tecnologia, produção de dados e encaminhamento institucional para mapear a violência e transformar os dados em ação pública.
O que é Sentinela?
Criado para mapear, analisar e combater a Violência Política de Gênero e Raça LGBTfóbica, a Sentinela é uma tecnologia de monitoramento que integra inteligência artificial com inteligência coletiva, dados com mobilização social, e proteção digital com redes humanas de cuidado. Atuando em duas frentes complementares - a participação ativa das próprias lideranças e a extração automatizada de dados em redes sociais -, o projeto gera evidências robustas para informar políticas públicas, subsidiar investigações e pressionar por um ecossistema digital mais seguro e responsável.
Principais objetivos
Detectar e classificar padrões de violência política de gênero e raça LGBTfóbica em ambientes digitais
Reduzir a subnotificação por meio de canais acessíveis de coleta de relatos
Produzir evidências para subsidiar políticas públicas e atuação institucional
Conectar alvos a redes de proteção, apoio e responsabilização
Disputar o desenvolvimento da IA a partir de parâmetros de justiça social e direitos humanos
“Nos ameaçam
porque nosso projeto é potente.”
Dep Federal Erika Hilton.
Sentinela opera em duas frentes integradas:
1) Participação ativa da liderança - Um chatbot de IA integrado ao WhatsApp, que permite que lideranças políticas relatem episódios de violência de forma acolhedora, conversacional e segura. Os relatos também podem ser feitos via formulário online Typeform. Em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), cada relato pode se transformar em denúncia oficial, com acompanhamento, acolhimento e encaminhamento das vítimas.
Como funciona?
2) Extração ativa de dados - O projeto realiza a coleta automatizada de comentários das redes sociais de lideranças LGBT+ na política e aplica modelos de IA treinados com taxonomia própria, desenvolvida em português sobre VPGR LGBTfóbica. Diferente de modelos genéricos, a ferramenta é capaz de capturar não apenas ofensas explícitas, mas também nuances de linguagem, formas veladas e contextuais de violência.
Impacto
O impacto esperado da Sentinela está ancorado em duas dimensões complementares: a construção de uma infraestrutura de dados em escala sobre a violência política LGBTfóbica e a consolidação de uma abordagem baseada em democracias de cuidado, que articula tecnologia e redes sociais de proteção.
Após uma prova de conceito que permitiu a identificação de 3.478 ataques para uma única candidatura em um volume de 14.586 comentários em 2024, a nossa próxima fase do projeto prevê a análise de mais de 500 mil comentários associados a uma única liderança política, o que permitirá mapear, com alta granularidade, os padrões de incidência, intensidade e recorrência da violência ao longo do tempo.
Paralelamente, o Sentinela avançará no monitoramento contínuo dos perfis das lideranças que se inscreverem no projeto, constituindo uma base dinâmica e longitudinal de dados sobre violência política. Essa abordagem permitirá acompanhar trajetórias individuais e coletivas, identificar padrões recorrentes entre diferentes perfis (por exemplo, por raça, identidade de gênero, região ou filiação partidária) e produzir evidências comparativas capazes de orientar tanto estratégias de proteção quanto políticas públicas mais amplas. Em médio e longo prazo, a expectativa é que o Sentinela contribua para transformar as condições de participação política de lideranças LGBT+ na América Latina.
Parcerias
Atualmente, a Sentinela é desenvolvida no âmbito de uma articulação latino-americana que compreende a tecnologia como um campo de disputa política e coletiva. A partir da experiência compartilhada entre organizações do Brasil, México e Argentina, o projeto integra a Aliança Latino-Americana por Democracia, Tecnologia e Cuidado (Abiala) - uma rede que combina inteligência artificial, mobilização social e tecnologias de cuidado para enfrentar a violência política na região.
Além disso, em 2024 formalizamos uma parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que atuou como elo fundamental entre a produção de dados e a resposta institucional à violência política. A colaboração permitiu que os relatos coletados pelo projeto - mediante consentimento das vítimas - fossem encaminhados para canais formais de acolhimento, acompanhamento e responsabilização, reduzindo a distância entre a experiência da violência e sua tradução em ação pública.

